06/02/2015

Quem invadiu quem e porquê?

Em 2005 inventou-se o arrastão de Carcavelos. A nova narrativa policial, ampliada pela Mídia, é a da invasão da esquadra da PSP de Alfragide por cinco jovens negros (portugueses e cabo-verdianos), um deles deficiente. Não sei se o objectivo é criar uma espécie de Charles Hebdo luso, fazendo com que a negrofobia se instale numa sociedade em que o racismo encontra-se institucionalizado. Tenho para mim que uma instituição que tem como agentes enurgúmenos ostentando símbolos nazis, que diariamente provocam jovens negros residentes nos "espaços ultramarinos internos", não devem ser levados a sério (e com isso não quero dizer que os jovens dos bairros são todos uns santinhos). Toda a narrativa é falsa e insustentada e fica por explicar como é que um jovem deficiente desarmado invade uma esquadra cheia de pittbulls fardados. A questão deveria ser posta da seguinte forma: quem invadiu quem e porquê? 

Daquilo que se sabe, a PSP de Alfragide, como é costume, entrou Kova M ontem à tarde, numa operação de rotina, tendo detido um jovem, prontamente agredido no local. Mediante os protestos dos moradores perante mais essa actuação desastrosa, responderam a tiro, acertando com três tiros de caçadeira uma moradora do bairro. Ya, as balas eram de borracha... e como é também rotina quando alguém do bairro é conduzido à esquadra, sobretudo em situações do tipo, funcionários da Associação Moínho da Juventude ali se deslocarem com o objetivo de prestarem algum tipo de apoio. Desta vez, foram a vez de LBC e Kromo, monitores do Moínho, acompanhados por mais três amigos. O objectivo era prestar queixa contra mais esta desastrosa actuação policial no bairro. Foram detidos, espancados e Kromo foi baleado à queima roupa (primeiras imagens dos detidos). Impressionante é o número de jovens negros espancados nas esquadras da PSP de Lisboa, sobretudo na linha Amadora-Sintra. Sem falar dos jovens negros assassinados pela polícia (documentário da PG sobre a violência policial e racismo em Portugal). Os cinco continuam arbitrariamente detidos e ainda não foram ouvidos. Talvez amanhã ou só segunda... 

Na terra dizem que somos uma Nação Global. Se somos mesmo isso, estão estes problemas são também nossos. Os imigrantes cabo-verdianos espalhados pelo mundo não podem continuar a ser olhados apenas como eleitores e "mandadoris di dinheru pa tera". Nem sequer faz seis meses que a ministra da questão juvenil e afins, nova chefe do partido amarelo, esteve na Kova M caçando votos. Visitou o Moínho... mas também é verdade que não se pode esperar grande coisa de um Governo que ignorou o terrorismo contra o bairro da Santa Filomena, colocando-se ao lado dos agressores e pior, ignora e violenta os cabo-verdianos, sobretudo os jovens, na sua própria terra. Onde estão os Charlie Hebdo de Janeiro? E os Mídias da terra? Os activistas crioulos, sobretudo o pessoal ligado ao rap, têm de começar a perceber que esses problemas são globais e lutar contra eles só é possível ultrapassando o quintal mental de cada um. O lema Unidade e Luta que tanto se apregoa só faz sentido quando pensado de forma global ou então não se percebeu nada da teoria cabralista. De facto a luta tem de continuar...

Adenda: amanhã serão apresentados ao Juiz no Tribunal de Sintra (Portela de Sintra) pelas 9h00.

[Imagem de autor desconhecido]